Como decidimos quanto poupar e quanto gastar? Saber como funciona este processo é algo importante não apenas para nossas vidas individuais, mas também para a política econômica de um país. Este tipo de informação é essencial para a discussão da crise do sistema previdenciário brasileiro no atual contexto de possível reforma. O trabalho do economista e professor do MIT, Franco Modigliani, sobre poupança e mercados financeiros (agraciado com um Prêmio Nobel de Economia em 1985) é fundamental para esta discussão. 

 

Nascido na Itália em 1918, Modigliani ingressou na Universidade de Roma em Direito. Sua paixão por economia surgiu no segundo ano de faculdade após participar e ganhar um concurso sobre o tema. Radicado nos Estados Unidos em 1939 devido a iminente situação de guerra na Europa, concluiu seus estudos econômicos com doutorado pela New School for Social Research, em Nova York. Em 1962, tornou-se professor do MIT. Foi, ainda, presidente da Associação Americana de Economia, da Associação Americana de Finanças, bem como da Sociedade de Econometria Americana.

 

Seus trabalhos, elaborados com Richard Brumberg, um de seus estudantes, são essenciais para entender a crise em nosso sistema previdenciário nacional. Isso se deve ao seu pioneirismo na análise da questão de poupança e consumo e da importância desse fator para o crescimento econômico de um país.

 

 A ideia de Modigliani, apelidada de “A Hipótese do Ciclo de Vida”, buscou demonstrar como o padrão de consumo e poupança varia durante cada idade. A base do estudo afirma que cada pessoa escolhe a quantidade consumida desejada para cada etapa de sua vida, sem relacionar a sua renda naquele exato momento à decisão. Nesse sentido, indivíduos em época de plena atividade produtiva, isto é, mais jovens, optam por poupar recursos com o objetivo de garantir um determinado padrão de consumo no futuro. Ao passo em que os mais jovens possuem uma tendência maior a poupar dinheiro a fim de garantir recursos para o futuro, os mais velhos possuem tendência oposta: pessoas idosas consomem muito mais em relação ao que poupam.

 

O conceito parece simples, mas é essencial para analisar o crescimento econômico de um país como o Brasil. Isso porque o gasto das pessoas idosas é transferido aos mais jovens que acumulam tal capital e, desta forma, a riqueza produzida por uma sociedade flui de uma geração para a outra. Como a produção de novas riquezas do país depende da quantidade de poupança comparada a quantidade consumida, se essa quantidade se iguala, há apenas a mera transferência de riqueza de uma geração a outra, implicando em estagnação econômica. 

 

Ao analisar o modelo previdenciário vigente, percebe-se a imposição ao trabalhador da poupança durante sua fase de contribuição. Ele, projetando a quantidade que receberá no futuro, estabelece o nível de consumo futuro desejado, isto é, quanto ele espera receber quando se aposentar. Com o aumento da expectativa de vida no Brasil para 74,68 anos e do declínio da taxa de nascimentos para 14,16 para cada mil habitantes obrigam o governo brasileiro a pagar os benefícios de aposentadoria por um período mais longo. Assim, os gastos com aposentados crescem, enquanto a quantidade de pessoas em período produtivo que contribuem para a Previdência está diminuindo. Assim, em breve, não haverá dinheiro para financiar o sistema previdenciário, pois o país entrará em estagnação econômica.

 

Uma possível saída deste caminho tramita no Congresso. A atual proposta de alteração do modelo de aposentadoria promovida pelo governo de Michel Temer busca realizar mudanças essenciais para a manutenção do sistema. Dentre elas, destacam-se a idade mínima para que se possa pleitear a aposentadoria e uma maior quantidade de tempo de contribuição, de modo a desencorajar pessoas mais jovem a se aposentar cedo.

 

A ideia de Modigliani também é extremamente relevante para a formulação de outras políticas públicas a fim de evitar consequências econômicas devido ao envelhecimento da população. Programas de incentivo ao desenvolvimento tecnológico e a capacitação do trabalhador garantem que a produtividade média aumente. Crescem os salários e, consequentemente, a poupança de cada um – o que pode ser uma das soluções a amenizar o problema previdenciário atual.

 

Diante disso, os estudos de Modigliani nos ajudam a compreender o atual problema do sistema previdenciário brasileiro através da relação consumo e poupança de uma sociedade. Em um cenário em que se debate uma possível reforma da previdência, Franco Modigliani volta a ganhar relevância 42 anos depois.